OFICINA ARARA
PRETO NO BRANCO

Com o início da programação regular inauguramos um conjunto de intervenções no hall do CIAJG. A primeira dessas intervenções é da responsabilidade da Oficina ARARA, um projecto sediado no Porto que se estrutura em torno do trabalho colectivo, da força da colaboração e da energia do encontro; um espaço autónomo e aberto de experimentação em torno, essencialmente mas não exclusivamente, da produção de cartazes, livros e outras edições.

ARARA é um palíndromo (uma palavra simétrica que se lê da mesma forma nos dois sentidos) que representa de forma criptada a oficina como uma plataforma rotativa que pretende recuperar, através da potência do encontro e de uma ideia de comunidade, a função da arte enquanto forma de catarse colectiva. Para além disso, é uma palavra que se desdobra noutras palavras – ar, rara, arar – multiplicando-se em sentidos e operando um vaivém entre a ideia de reprodução e de repetição e a produção de diferença ou variação sobre um mesmo tema, que constantemente marca o ritmo de trabalho e de construção discursiva da Oficina.

De facto, a Oficina ARARA tem vindo a repensar e a propor, com as suas intervenções no espaço público e a energia gerada em torno de diversas colaborações entre várias disciplinas e linguagens, a potência do múltiplo como forma de reactivação do gesto artístico. Na prática dos ARARA, museu e rua, indivíduo e colectivo, cópia e original, novo e arcaico, orgânico e geométrico, articulam-se, indistinguem-se e, de certa forma, ecoam-se como duas metades do mesmo rosto ou duas faces da mesma moeda. Assim, não é por acaso que escolheram a mancha de Rorschach e a máscara como elementos axiais do projecto Preto no branco que conceberam para Guimarães.

A intervenção consiste, num primeiro momento, na produção colectiva de cartazes e bandeiras de diferentes dimensões em tecido estampado com manchas de Rorschach em forma de máscara, realizados em oficinas de trabalho promovidas com alunos da escola secundária vizinha da Plataforma das Artes.

Posteriormente afixados no espaço público, esses cartazes e bandeiras operam, por assim dizer, uma circulação – poderíamos dizer contaminação – entre categorias, curto-circuitadas nas suas funções e representações: o cartaz, enquanto suporte codificado de divulgação massiva, torna-se, através da (re)produção de um arquétipo formal, a projecção mesma do espaço da idiossincrasia e da subjectividade; a máscara, que tradicionalmente representa o apagamento da individualidade, torna-se numa projecção de um retrato pessoal e intransmissível.

Se, por um lado, o cartaz preserva a energia, a potência e a aura do protesto e da insubmissão, a bandeira “lança um apelo ao céu, cria um elo entre o alto e o baixo, o celeste e o terrestre”, sinaliza a presença do ar (do vento) é, de certa forma, a materialização dessa dimensão invisível que nos une. Mistério e comunidade.

Nuno Faria

“O vento venta, não venta
O mar que urra, não urra
Atrás de mim não vem gente
Oh! Meu Deus
Quem é que tanto me empurra?”

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February 1, 2014